Innerscapes:

Carlos Rezende

por Oscar Oiwa

http://www.oscaroiwastudio.com

Anatomia 

Fantasma

por Claudio Nigro

(Claudio Nigro, escritor, roteirista, crítico de arte, doutor em Literatura Comparada pela Universidade La Sapienza de Roma e formado pela Nuova Universtá del Cinema como diretor de cinema. Trabalha há mais de 17 anos com televisão e cinema. Roteirista da RAI italiana, autor de várias peças de teatro, colabora com revistas e publicações literárias além de lecionar roteiro, comunicação e estética em escolas e universidades no Brasil e na Europa.)

Cage/ como ovo / como ouvido / como cume / Carlos

por Ge Orthof

Gê Orthof: 1959, Petrópolis – Rio de Janeiro. Lives and works in Brasília, Brazil.

Professor at the Visual Arts Department – Art Institute – Brasilia Federal University, since 1993, Visual Arts Coordinator at Latin American Culture House – Brasilia University, (1999 – 2000). Visiting artist at School of Visual Arts, Penn State University (2002), Post-doctorate at the School of the Museum of Fine Arts, Tufts University (2001) Boston, Doctorate (Ed.D.) (1992), Ed. M (1985) and (M.A.) Visual Arts, T.C., Columbia University, Visiting artist at Aveiro University, Portugal (1990), New York, Fulbright Scholar at the School of Visual Arts, NYC (1983), and B. A. in Design at Rio de Janeiro State University (1981).

Founder editor of reVISta, the graduate program’s art magazine and has contributed with several publications specialized in art in Brazil, curatorship, and participation in juries, such as: Banco do Brasil Cultural Center, Caixa Cultural Center, Itaú Cultural Center, The National Foundation for The Arts, Brasilia University, Brasilia Cultural Foundation and Central Bank Museum. Has illustrated more than twenty children’s books for major publishing houses in Rio and São Paulo.

Innerscapes, por Oscar Satio Oiwa.

por Oscar Oiwa, New York.

Há muito tempo atrás, ainda estudante de arquitetura, Carlos foi um dos

primeiros colegas a dividir um estúdio comigo. Trabalhávamos e

vivíamos em um sobrado antigo localizado no bairro de Bela Vista em

São Paulo. Havia muitos em volta que sonhavam ser artistas e a casa

era uma espécie de ponto de encontro, entre o desejo e o

imaginário. A casa, por coincidência, pertencia a uma das netas da

artista Tarsila de Amaral e só isso já bastava para nos sentirmos

herdeiros do modernismo. Havia sempre um cheiro no ar que beirava

a solvente barato e gin igualmente barato. Carlos com o seu jeito

quieto das montanhas ajeitava uma pilha de livros de manhã e a

tarde. Quando eu voltava da escola, sempre o encontrava sentado na

mesmo posição em transe com as suas leituras. Outras vezes ocupado com

as suas pinturas, gravuras e livros de artista. Nunca foi de realizar

obras em quantidade, mas passava horas ocupado com sua criação. A

noite, junto com turma relativamente grande, saiamos atrás das

vernissages e festas. Havia certa cumplicidade intelectual dentro

da turma e era grande a vontade juvenil de fazermos algo, sairmos para

o mundo e fazermos uma espécie de revolução. Eram os anos 80,

desânimo total com a era Collor. Mas os anos estudantis foram chegando ao fim.

A poesia acabando. Cada qual foi seguindo o seu caminho, muitos, na qual me incluo,

foram viver fora do pais.

Outros preferiram viver “dentro” do país e entre eles, o meu parceiro de estúdio, Carlos.

Entre alguns períodos na Europa, agora se fixa no Brasil.

Relembrando a sua produção no início da carreira, e olhando a sua atual produção,

sinto que a essência da sua pessoa não mudou muito com o tempo.

Nas obras somou a experiência dos anos vividos.

Fico feliz em saber que continua ativo com as suas criações.

***

  

Diante de uma anatomia animalesca, fantasmagórica e eletrizada por uma gama

de cores que beira a fluorescência, podemos nos perguntar: Quem são estas figuras?

Quais corpos? Que humanos elas retratam?

Cerebros ready-made. Cachorros e homens numa única lâmina.

O universo orgânico de Carlos Rezende abre mais um espaço à própria delirante pesquisa.

O feitio das obras induz, mais uma vez, ao delírio, a uma ausência aparente de projetação e de intentos.

Deus sabe quanto isso é ilusório: quem parar para analisar a obra do artista percebe aos poucos que essa

ausência de intenções é violentamente proposital. Não há obra sem mente. E por mais que se aplique

em cancelar o adulto mentor dentro do próprio projeto ele ressurge no rigor formal e na seriedade

desse labiríntico brinquedo que é a carreira do artista.

Corpos cuja deformação óssea é estetizante parecem induzir o pensamento em direção

a uma reorganização dos organismos sob a leviana vontade de um desejo estético ainda

comprometido com as influências que caracterizam a obra de Rezende.

Estes humanos radiografados têm terminações contortas, felinas, seus corpos revelam

relações profundas com entidades físicas surpreendentes. Humanóides vistos sob o prisma

de alguma mente privilegiada não são seres isolados no limite da própria carne.

Seus organismos abrem uma delicada comunicação com objetos e formas de ambígua natureza,

sugerindo uma relação profunda do homem com idéias, substâncias e estruturas,

que não estavam previstas em nenhum exame tomográfico, em nenhum tipo de análise estrutural.

Dissecados, estes pulmões tem ramos que ameaçam florescer sem vontade e sem propósito,

rumo às estruturas que desaparecem no quadro. Há uma novidade cromática experimental.

Um gosto inusitado por relações pictóricas oscila entre comunicação e a ameaça.

A influência de autores como Anselm Kiefer, por exemplo, deságua na textura dessas imagens

diluídas a spirits (como os títulos sugerem) numa entonação cromática que se relaciona a um componente naif,

quase, mais infantil e mais ligado ao sonho do que na obras do autor germanico.

O traço problemático de Rezende é deliberado, proposital, ainda que fluído e naif,

uma característica que surpreende, conjugada a pigmentos tão eletrônicos.

Há a busca de relações de extrema liberdade na escolha quase adolescente desses pastéis ao neon,

que acabam se conjugando, junto ao traço viril e ao evidente rigor formal dos trabalhos em questão.

Em nenhum momento há a tentativa de seduzir o público com uma linguagem fácil

ou de se criar estruturas estéticas de imediato prazer.

Há nessa série uma leve ameaça ao olhar desatento.

Não obstante uma ruidosa relação com o pop e seus conceitos esvaziantes, como por exemplo,

caixas de embalagens para órgãos humanos. Este trabalho traz em si uma 

discussão artística notável, por vezes desesperada em seus momentos mais brilhantes.

 

***

O tabuleiro desse jogo possui (ilusoriamente) três faces:

Primeiro movimento: jogamos um dado que nos lança para a superfície do VISÍVEL.

São textos adesivados. A primeira tática parece indicar a ação de aglutinamento:

Adesivo com a parede, texto com a memória, letra com palavra, ação com imagem.

Coisa mais arcaica o desejo contemporâneo de unir partes que não se pertencem,

de desafiar tanto o isolamento como a gravidade. Irresistível o fascínio que eles

possuem sobre nós. São tantas as lembranças e as livre associações:

Cola na mão para decalcar as linhas do tempo, adesivos para amar-protestar-reivindicar-adornar,

silver-tape, durex, crepe, contact…para 1001 utilidades. Família abundante,

geradora de um vasto repertório de imprescindíveis grudentos da arte e da vida.

Unimos o que é desigual, para criar novos campos de improváveis conjuntos.

 

Segundo movimento: A NATUREZA.

Aqui enfrentamos as grandes telas impregnadas de caveiras, esqueletos,

órgãos recompilados em estranhas paisagens. Imagens recortadas, fragmentos que não revelam,

de imediato, o universo de seu conjunto. A palheta utilizada, promove mais um deslocamento,

as cores são hipersaturadas: céus de neon, pele de cochonilha, folhagens de marcatexto,

impedem atrelar uma lembrança nostálgica de naturezas-mortas do passado.

natureza aqui é viva e esfacelada: não são landscape, mas innerscape. Se nos textos,

a ação utilizada era o de adesivar, agora, tudo se transforma em fragmento.

Perdemos a linearidade natural do texto, podemos ler em qualquer direção, em qualquer idioma.

Nos tornamos livres pelo desconhecer, não há sintaxe preestabelecida.

Promessa de uma totalidade idealizada, em um golpe de vista acreditamos dominar a mirada.

“Contudo o senhor Palomar não perde o ânimo e a cada momento acredita haver conseguido

observar tudo que poderia ver de seu ponto de observação, mas sempre ocorre alguma coisa

que ele não tinha levado em conta […] 1”

 

Terceira margem: Colorboards: LOGOS

Blackbird fly away

May you never be broken again…

As lousas coloridas, para espantar, talvez, a escuridão do quadro-negro apontam para

alguma lição que esquecemos de aprender. Sei que o artista brinca com o mestre Cage,

entramos na roda do jogo da essência, monocromos intensos riscados com giz, giz de chão,

rés do chão, essência, início de tudo, pura invenção do acaso, um roda-peão em fluxus:

Peço imagens ao vento, o giz rasura a trilha do desejo, arrepio na medula ao lembrar

o arranhar do giz na lousa: — dada Is not dead, watch your overcoat!  Estranho e estóico

desejo de ordem graças a uma harmonia fluida e descontrolada.  As intervenções impetradas

aos campos de cor buscam a malha que tudo tece e sustenta, no entanto as ações

não confirmam as pressupostas intenções. Estamos sob o céu do artifício, estamos sem pele

expostos pelo osso, aqui tudo é essência, tudo é nostalgia e possibilidade. É necessário o silêncio

para escutar—tarefa inglória em um mundo hiperexcitado e mediatizado—uma vez mais Cage:

“Se algo é enfadonho após dois minutos, tente por quatro. Se ainda assim for enfadonho, então oito,

dezesseis, trinta e dois. Eventualmente descobriremos que aquilo não é enfadonho de maneira alguma”.

Paro, momento de respiração intensa em pausa. Desisto de tentar decifrar a ação, a motivação, le truc.

Cesso de tagarelar e exercito o contato pelo misterioso e redondo texto, passeio em torno do zero,

tábula rasa em tensão…: Como ovo, como ouvido, como cume, como zero…

 

[1] CALVINO, Ítalo. Palomar . São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

***